O jornal eletrônico de Águas Claras • Quarta Feira, 15 de Agosto de 2018

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eleições

Você já discutiu sobre política com um robô hoje?

Capa: Ilustração de Rachel Denti para o space10.

 

Seja de direita ou de esquerda, o uso de perfis automatizados de redes sociais para influenciar o debate político na internet se intensificou desde as eleições de 2014. É o que mostra o trabalho da DAPP-FGV, dirigido por Marco Aurélio Ruediger, publicado recentemente.

 

O estudo monitorou milhares de perfis do twitter identificados como robôs, e constataram que sua atividade se intensificou em momentos relevantes no cenário político brasileiro, como o impeachment de Dilma Rousseff, a Greve Geral do dia 28 de abril, debates televisivos para prefeito em 2016 e em votações importantes como a da reforma trabalhista.

 

 

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Inteligência artificial e eleições

 
Alexander Nix, executivo da Cambridge Analytica, em Nova York

 

Com as redes sociais, o ambiente relações políticas e eleitorais mudaram completamente, e o uso e domínio de seus recursos parece ser um fator cada vez mais decisivo. A surpreendente eleição de Donald Trump nos EUA lançou luz sobre o poder do Big Data campanhas eleitorais. No começo do ano, logo após a vitória de Trump, o analista de dados suíço Michal Kosinski revelou ao jornal alemão Das Magazin como terabytes de dados do seu projeto de pesquisa de usuários do Facebook, no Instituto Federal de Tecnologia de Zurique (ETH), foram parar em mãos erradas. No caso, nas mãos da Cambridge Analytica, uma firma inglesa de comunicação digital que acabaria trabalhando para o Partido Republicano nos EUA em 2016. O resto da história todos conhecemos. O nível de refinamento das informações de eleitores obtidos pelas novas técnicas de Big Data foram decisivas para a equipe de campanha de Donald Trump, que contou com o a focalização quase cirúrgica de perfis demográficos para a veiculação de propaganda partidária, uma exclusividade das redes sociais; em detrimento das grandes mídias de massa cujos editoriais apoiaram quase em uníssono a candidatura de Hillary Clinton. Depois das eleições nos Estados Unidos e do resultado do Brexit (que também contou com esta inovadora forma de assessoria), todos os olhos se voltaram em como utilizar o poder da computação para influenciar resultados eleitorais.

 

No Brasil

 

Para o estudo da DAPP, a utilização de robôs deve ter sido motivada pelas jornadas de junho de 2013, onde as redes sociais se mostraram uma poderosa ferramenta de articulação e integração política, possibilitando movimentos de rua que não se viam desde o “Fora Collor” no Brasil. Mas de lá para cá, com a escalada eleitoral em 2014, as redes foram inundadas por velhas estratégias políticas de difamação e manipulação de debates públicos.

 

Exemplos da atuação de robôs em momentos importantes.

 

Os pesquisadores representam os dados de interação política em redes sociais por meio de ‘nuvens’ onde identificam perfis à favor e contrários a determinado assunto. Em momentos chave a atividade nas redes sociais aumenta bastante – todo mundo quer comentar ou se posicionar sobre tal assunto – e as nuvens se polarizam. Os pontos em rosa são perfis identificados como robôs pelo estudo. Pode-se ver pelos gráficos que os robôs estão presentes nos dois lados do espectro político.

 

1 – Manifestações pró-impeachment.

Nas manifestações contra o governo Dilma Rousseff, em 2015, pelo menos 10% das interações sobre o assunto neste dia foram impulsionadas por robôs, ou seja, retuítes de conteúdo originado por conta automatizada.

Cluster do Twitter em 13 de março de 2016 – fonte: DAPP/FGV

 

 

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2 – Greve Geral de 28 de abril

Após o impeachment de Dilma Rousseff, ganhou força no Congresso Nacional o debate sobre reformas da legislação trabalhista e previdenciária. Foi a partir deste cenário que centrais sindicais e partidos contrários às reformas convocaram uma greve geral o dia 28 de abril de 2017, quanto maior a adesão mais forte seria a demonstração de rejeição e insatisfação popular quanto ao Governo Federal e suas propostas. Entre os apoiadores da greve, 22,39% das interações foram motivadas por tuítes automatizados.

Cluster do Twitter em 28 de abril de 2017 – fonte: DAPP/FGV

 

Qual o problema disso?

Os perfis falsos podem servir a vários fins, seja forjar apoio a certo candidato ou proposta política, disseminar sites com notícias maliciosas, enviesadas ou falsas (a epidemia de fake news) que poluem o ambiente virtual. Esses robôs podem trabalhar de maneira orquestrada em momentos-chave para a efetivação de um engajamento popular maior do que o real, produzindo uma opinião artificial, ou dimensão irreal de determinados assuntos, o que pode minar a autenticidade de decisões democráticas. Se fraude eleitoral já é um problema reconhecido e amplamente rechaçado por qualquer sistema democrático, a fraude de adesão e opinião pública, na era da pós-verdade, deve ser cada vez mais combatida também.
 
 

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