O jornal eletrônico de Águas Claras • Sexta Feira, 20 de Abril de 2018

Game of Thrones

Esta temporada de Game of Thrones parece ter sido escrita por um fã.


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O melhor em romances, emoções e vinganças em uma temporada só.

A série Game of Thrones preenche um certo anseio na psiqué da cultura pop, com um apelo semelhante a séries como Breaking Bad e The Walking Dead. São séries de TV tão sinistras, recheadas de personagens tão miseráveis, que a vida real parece alegre e radiante em comparação. Em Game of Thrones, novos personagens introduzidos acabam perecendo numa janela de alguns episódios. Romances não-correspondidos, que afloram as emoções, são esmagados antes de qualquer um dos pares ter qualquer chance de conhecer a felicidade. E até os melhores momentos são entremeados com certo medo: quando algo bom acontece, geralmente é o prenúncio de uma tragédia.

Aviso: Spoilers de Game of Thrones à frente

 

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Entretanto, nesta temporada, nada disso parece ser verdadeiro. Seja um romance com o par preferido, uma batalha mortal de dragões, ou reencontros de famílias há muito separadas, os produtores David Benioff e Dan Weiss estão dando aos fãs tudo o que eles sempre desejaram. A impressão que dá é que esta temporada se trata realmente de uma fan-fiction, exatamente o que a torna uma das temporadas mais satisfatórias.

Tudo começa com o atual ritmo vertiginoso que a série tomou. Game of Thrones sempre teve um elenco grande, e um mundo ainda maior para cobrir. Por vezes isso deixava a história lenta. Em temporadas anteriores, era comum episódios inteiros passarem sem qualquer evolução da trama, ou que um membro dos Starks saísse do radar por uma temporada inteira. Em comparação, este ano pareceu uma maratona, com momentos como Arya Stark impiedosamente matando Walder Frey, Euron Greyjoy capturando sua irmã Yara e a cruel vingança de Cersei à Ellaria Sand, praticamente um atrás do outro. Nem ligamos mais com o sumiço das cenas de viagem, com um personagem pulando de uma ponta de Westeros para a outra num piscar de olhos. Às vezes parece que Jon Snow tem poderes de teletransporte, mas tudo isso garante que todo episódio seja ação e um rápido progresso da história.

Há sempre um Deus (or Bronn) ex Machina para salvar o dia

Uma fan-fiction não pode prescindir dos personagem favoritos dos fãs, e outra característica desta nova temporada é que esses personagens não morrem. Mesmo quando se encontram em situações complicadas, aparece algum deus ex machina (ou Bronn ex machina, no caso de Jaime) para salvar o dia. Daenerys sobreviveu montada em um dragão às alturas, desviando de flechadas por todos os lados, durante o ataque ao comboio dos Lannisters; Jorah superou sua doença “incurável” , escamagris, graças as modestas provisões de uma faca e um pouco de pomada. Pelo que consta nos livros crianças tem mais chances de serem curadas da escamagris que adultos, mas até a Shireen Baratheon ficou desfigurada pela chaga; a pele de Jorah, em constraste, não parece tão tenebrosa assim. Um distanciamento notável de um programa que se consagrou já na primeira temporada por decapitar o personagem que todos achavam ser o protagonista de toda a série.

 

Não se pode dizer que ninguém foi morto este ano. Afinal, estamos falando de Game of Thrones. Mas a sétima temporada conseguiu afagar o impacto até destes óbitos. Os produtores se livraram de personagens que já não suportávamos (adeus, Serpentes de Areia) ou, no caso de Lady Olenna, sua morte foi tão triunfante que muitos praticamente vibraram com a cena.

 

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Mas a maior razão da qual a sétima temporada parece tanto ter sido compilada por um fã de carteirinha são os romances. Nesta temporada, a cena de sexo entre Missandei e “Verme Cinzento” foi um dos momentos mais ternos de toda a série. A cena se passou como uma boa fan-fiction: dois personagens que há muito se desejavam finalmente terminaram juntos após trocas de declarações melosas como “você é minha fraqueza”. Um momento tão bonito que deixou os telespectadores em pânico, se perguntando quem acabaria morrendo primeiro. (Pois há um padrão aqui, lembre: Ygritte e Jon Snow, Rob e Talyiah, ambos separados pela morte, cortesia da mente perversa do autor George R. R. Martin). Mas até agora, Verme Cinzento sobreviveu à chegada em Casterly Rock, e se mantém seguro fora das câmeras até agora.

Aí vem o notório desejo de ver Jon Snow e Daenerys Targaryen juntos. É o casal (provável incesto) que muitos fãs sonhavam ver há anos, e por muito tempo era só isso mesmo: um sonho; com Jon do outro lado da Muralha e Dany ainda em Essos. Mas nesta temporada o par finalmente se conheceu. Eles trocaram olhares fumegantes, tiveram discussões desajeitadas sobre se ajoelhar à coroa e curtiram uma caminhada juntos. Nada muito romântico (até o episódio deste domingo), mas as cenas foram um prato cheio de GIFs românticos para os fãs do casal Jonerys.

Só que os Targaryen não são o único casal que os fãs torcem. Sr. Jorah Mormont, curado da escamagris, também voltou ao lado de Dany em Gragonstone. A Mãe dos Dragões não tentou nada com ele, mas teve uma certa tensão nas suas despedidas que deixavam claro que algo estava acontecendo neste fronte também. Esteja você no time do Jon ou no do Jorah, a sétima temporada é uma ficção feita para você. E que melhor maneira de cozinhar uma certa tensão competitiva que lançar os dois pretendentes para o norte da Muralha de encontro com os White Walkers numa missão suicída?

 

Após seis temporadas no ar, a questão que fica é por que, de repente, Game of Thrones está satisfazendo todas as nossas expectativas e desejos. É difícil dizer o porquê exatamente, mas alguns fatores parecem contribuir. A incapacidade de George R. R. Martin escrever nos prazos do programa criou uma dinâmica fascinante para o show, com Benioff e Weiss seguindo um roteiro independente do livro neste ponto. Eles tem uma ideia da visão de Martin, mas estão dispostos a seguirem um rumo independente em questão da narrativa, reviravoltas e revelações. Foi exatamente isso que os permitiu criar uma versão de Game of Thrones mais amigável à TV do que nunca. Sem os próximos volumes do romance demandando que um personagem esteja em um certo local certa hora, os produtores puderam simplesmente definir o que é melhor para fazer a sua história.

Também não é novidade que a série está sendo produzida com um tempo exíguo. A próxima temporada será a última, e com apenas seis episódios para fechar tudo. Não há tempo a perder, e se Thrones quer terminar com um bom final, suas tramas enveredadas devem começar a convergir agora. Naturalmente isso resultaria numa série com grandes momentos para os personagens favoritos de quem quer que seja.

O resultado é uma versão destilada de Game of Thrones, que oferece à sua audiência apenas os melhores momentos para os personagens com quem se tem mais simpatia. Pode parecer fan-fiction às vezes, por entregar muitas das fantasias e emoções que a série havia prometido. Mas no final, não é. Trata-se de uma série industrialmente calibrada, funcionando de modo seguro rumo a uma conclusão épica com uma narrativa eficiente. Até nossos personagens favoritos morrerem e tudo cair por água abaixo. Afinal, isso sim é Game of Thrones.

Publicado originalmente em inglês por Shannon Liao para o The Verge

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