O jornal eletrônico de Águas Claras • Quarta Feira, 18 de Julho de 2018

0

Cultura

Catarse: Livro de Evan do Carmo-consubstanciação de existir

Não sou promesseiro. Nunca fui. Muitas outras pessoas também não são. Embora goste do caminho, dos passos, do cortejo, do séquito traçado por um pagador de promessa. Meus pais foram promesseiros lá pelas bandas do longínquo ‘senhor do bonfim’. Muitos promesseiros fazem o mesmo caminho. Eu não. E, embora não seja um promesseiro (nem de procissão, nem de aperto de mão) sempre fui dado a cumprir o acordado, o ajustado. Por isto evito prometer para que não me incorra de não cumprir o combinado, o afirmado.

Desses arranjos de promessa, em algumas situações fujo igual o diabo da cruz, ou o marruá dos compartimentos de um curral. Em outras, por precaução, prudência ou cautela, fujo devagar, a passos miúdos, literalmente à francesa.

Mas quando prometo, afirmo e acordo algo com outrem vou até o limite da promessa. Entranho-me no dito prometido feito gongo do babaçu, feito velhas quebradeiras no atiçamento do coco, que colhem a vida a fio de afiado machado.

 

Publicidade

Por isto quase sempre evito prometer. Há pouco prometi a alguém (um amigo, do qual nutro singular respeito e plural admiração) que, no descambar da tarde de seus caminhos de sol, quando o dia declinasse sua dorsal no preparo da casa para a nova hóspede, ateria meus olhos ao seu livro, intitulado Catarse. Um livro nascido a pouco, com o cordão umbilical à mostra, com o cheiro (e feitos) de purificação. Muito parecido com o criador: Evan do Carmo.

Não deu outra, no pispiar da noite, no badalar das horas do amém, quando as almas penadas se desalojam de suas morrenças duradouras e aprumam às suas vivalmas de ser, me debrucei sobre a mesa de trabalho, ajustei o PDF em tela cheia e me dei a uma descarga (catarse) afetiva de letras, de versos e de palavras a gosto de celebração.

A combinação dos pratos no preparo de um banquete é tarefa para poucos. Não pode ser pesado a ponto de matar a fome, tampouco leve demais que cause desinteresse. O Catarse, do multiartista Evan do Carmo me veio a tempo e no ponto. Bem cozido, bastante alecrim/versos que deu ao prato/livro um sabor distinto e um cheiro peculiar.

Na primeira colherada percebi que dos potinhos de temperos do Chef Evan haviam outras especiarias valiosas “Estamos destinados à tragédia a vida simples e comum dos homens não nos alimenta, queremos mais que o absurdo dos amores correspondidos”, era só abri-los e deixar os aromas se esparramarem por sobre o prato. Não perdi tempo e logo abocanhei cada grão/poema, como se fossem purê de raminhos servidos em malgas de cortiças.

Confesso, em relação a prato/poema sou um sujeito teimoso, tinhoso, obstinado, às vezes beirando ao recalcitrante. Nem tudo desce à garganta. Muitos nem chegam à boca. Alguns nem olho duas vezes, pois “entre tantos sonhos e quimeras eu quero a sombra das coisas”. Mas este Catarse me abriu o apetite. Estiquei o pescoço rumo à cozinha/livro buscando descobrir os indeléveis segredos do chef/autor. De soslaio “Em seu sorriso melancólico, vi um fatalismo tácito seguido de um silêncio morno incompreensível” Era a sua catarse alimentar. Por certo esconderia suas receitas à sete chaves, igual o da coca-cola, que a um ou dois somente é dado saber.

Frustrado com a empreitada mal sucedida, me veio em mente que um trauma é continuamente alimentado por restos de uma emoção reprimida, assim, como “não sou, nem nunca serei escravo de ideologia nem escravo do amor nem da alegria…”, pois “sou livre”, e, mesmo havendo “contradição no meu discurso e confusão no curso da minha epígrafe”, soube-me (e me quis) “vinho (…) que jorra dos abismos da terra para alimentar nos homens um sonho de eternidade.”

 

Publicidade

Com isso, passei a evocar minhas fomes passadas à minha ação de comer. Não deu outra. O Chef/Evan sorriu e, sem delongas me serviu “entre goles de suspiros e de saudades” tudo o que havia em sua “mesa da fartura” bem à minha frente: “Homens ocos, de Eliot, a Tabacaria de Pessoa, a temporada no inferno, de Rimbaud, as flores do mal de Baudelaire, as cinzas das horas de Bandeira.”

Farto com tamanho banquete, ainda ouvi, de saída, o Chef/Evan me dizendo, em um murmúrio quase sepulcral: “Tente não naufragar nessas águas, caso sobreviva se tornará poeta.” Sorrindo agradecido, pelo conselho e pelo banquete, que já estava quase ao fim, lembrei ainda que o valor catártico de Breuer e Freud recomendam que “É na linguagem que o homem encontra um substituto para o ato. Substituto graças ao qual o afeto pode ser ab_reagido quase da mesma maneira”

Desta forma, compreendendo que, poucas vezes fui servido com um banquete tão farto e apetitivo, já que, “entre o belo e o absurdo” desta facticidade de vida do meu existir-existindo sempre houve ”cinzas de uma história perdida, lágrima de sangue derramada e uma taça de vinho a ser bebida”. Assim, chamei o Chef/Evan e o agradeci, expondo todo o meu contentamento pelo banquete.

Aproveitei a ocasião e tentei argumentar o porquê de tamanho segredo em suas receitas/poesias, entretanto, com o braço esquerdo descansando por sobre seu dorso posterior, com um guardanapo/verso estendido no antebraço direito, com a mão segurando firmemente a bandeja/poesia à altura do peito, com o tronco levemente curvado à frente, o Chef/Evan, olhando firme em meus olhos, me disse: “Não, não me fale destas coisas sem importância, pois na vida, cedo ou tarde tudo perde a importância, a convivência com a humanidade me fez indiferente, insensível às dores do meu semelhante, todavia, não me julgue, não me queira mal, pois afinal, como tu, eu sou humano.”

No mesmo instante entendi que não obteria logro, restaria agradecê-lo e comparecer, a cada exalar de fome, aos tratos gastronômicos do Chef/Evan. Porém, no estalo de um haicai caindo pelo entardecer, “a porta se abriu, de repente tudo se revelou, o mundo se expôs” aos meus olhos “a flor maior do mundo obra original” de Evan do Carmo. Sem dizer palavra alguma a amizade se firmou entre os dois seres.

Finalmente me clareou a mente e percebi que “poderia fazer mil poemas em um dia como Fernando Pessoa que escreveu 40 em poucas horas, em pé, em transe, e depois disse que não sabia como fez”, que jamais iria decifrar “a beleza, o silêncio e o vento” contido nas entrelinhas deste belo livro que me foi dado a degusta-lo, poema a poema, em uma consubstanciação de existir.

Agasalhei os talheres ao lado dos pratos, recolhi alguns grãos e os coloquei em meu bolso/alma, em propostas de esperanças de um dia retribuir tamanho presente. Levantei-me, aprumei a camisa por sobre a escápula do omoplata, ajustei o cós da calça à cintura, tomei um último gole de chá/poema e saí, escuridão afora “prisioneiro do mais aprazível ócio”.

Ao atravessar a rua ouvi como se fosse a noite tecendo seus murmúrios ao vento “livros mudam o mundo, mudam os homens, fortalecem o espírito abatido, libertam as almas.” Cristalizei o meu pensamento ao instante fugaz, olhei para trás (fechando a ultima folha do livro) e, em uma Catarse final fui habitar “sozinho entre anjos e demônios com a palavra eternidade”.

Por

 Alufa-licuta Oxoronga

Psicólogo e Poeta

Evan do Carmo, Nascido na Paraíba em (29/04/64) é poeta, escritor, romancista, jornalista, músico, filósofo e crítico literário. Fundou e dirigiu o jornal Fakos Universitário. Criou em 2009 a revista Leitura e Crítica. Tem 22 livros publicados, sua obra está disponível em 12 países, (um livro editado em inglês. (O Moralista) Entre outros estão: O Fel e o Mel, Heresia poética, Elogio à Loucura de Nietzsche, Licença Poética, Labirinto Emocional, Presunção, O Cadafalso, Dente de Aço, Alma Mediana, e Língua de Fogo. Participou também com muitos contos em antologias. Foi um dos vencedores do concurso Machado de Assis do SESC DF de 2005. Em 2007 foi jurado na categoria contos do concurso Gente de Talento 2007 promovido pela Caixa Econômica Federal, ao lado de Marcelino Freire. Em 2012 criou e editou até 2015, os Jornais: Correio Brasília, Jornal de Vicente Pires, Jornal de Taguatinga e o Jornal do Gama. Evan do Carmo é estudioso da obra de José Saramago, em 2015 publicou o livro Ensaio Sobre a Loucura, e o livro Reflexões de Saramago, momentos antes de sua morte, o livro nos oferece um panorama perfeito na voz do próprio Saramago em forma de ficção ensaísta, sobre a obra do Nobel Português. Em 2016 criou a Editora do Carmo e o projeto Dez Poetas e Eu, onde já publicou 100 poetas, e o livro Um Brinde à Poesia, uma obra de coautoria com outros poetas contemporâneos.

Palestras e oficinas literárias (61) 8413-0422

Comentários

}