O jornal eletrônico de Águas Claras • Domingo, 20 de Maio de 2018

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História

Legado de JK em letras, em vez de números – por Eduardo Migowski

Muitas vezes o governo de JK é visto pelas lentas dos números frios. Abertura econômica, metas, crescimento, inflação etc.

Pouco nos damos conta, porém, de como tais mudanças eram percebidas pelas pessoas daquela época.

A construção de Brasília, por exemplo, a grande epopeia dos anos 50, afetou profundamente os moradores do Rio de Janeiro, Capital Federal até aquele momento.


O governo JK oferecia um aumento salarial de 100% para os funcionários públicos que aceitassem a remoção para a nova cidade. Essa proposta criou um dilema entre os cariocas: rumar para o desconhecido, em busca de uma vida melhor, ou permanecer na Cidade Maravilhosa?

Essa dúvida povoava a cabeça do homem comum e foi retratada pela principal manifestação artística popular da cidade, o samba. Já na primeira canção sobre a nova capital (que ainda não tinha nem nome), os compositores cariocas Jorge de Castro e Wilson Batista brincavam com a transferência de alguns símbolos do Rio de Janeiro para o interior e tentavam salvar aquilo que a cidade tinha de “mais sagrado”:

 

“leve tudo para lá, presidente/ mas deixe aqui o nosso carnaval/ Carioca chora da lágrima cair, se o reinado do Momo também se transferir” (Nova Capital).

Conforme Brasília iria ganhando contorno e precisando de mais trabalhadores, os conflitos existenciais aumentavam. Mas havia os mais decididos. Enquanto José Rosas não pensava duas vezes antes de deixas tudo para trás: “vou me embora para Brasília e não levo saudades da Guanabara” (Me Leva, Seu Presidente), Billy Branco batia o pé e não aceitava mudar da sua amada Copacabana:

 

“não vou, não vou para Brasília/ nem eu, nem minha família/ mesmo que seja para ficar cheio da grana/ a vida não se compara/ mesmo difícil e tão cara/ quero ser pobre sem deixar Copacabana” (Não Vou Para Brasília, Billy Branco).

Os dois exemplos acima eram exceções pensadas pelos poetas. Na vida real, num país pobre como o Brasil, oportunidades como essa não podem ser recusadas. Mas o amor pela terra natal também machucava o coração das pessoas humildes. E esse dilema foi retrato de modo magistral por Gilberto Fernandes:

“Brasília não tem carnaval/ nem é cidade maravilhosa/ não tem praia de Copacabana/ com a garota tão bacana/ Não tem Cristo Redentor/ A Guanabara com todos seu esplendor/ Não tem o colosso do Maracanã/ Mas será o Brasil de amanhã” (Adeus, Emília).

Assim a nova capital foi erguida: com suor, esperança e muita saudade. Tudo para construir o Brasil de hoje.

 

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Eduardo Migowski:

Professor formado em história, mestre em filosofia pela PUC/Rio, e atualmente faz doutorado em ciências políticas na UFF. Escreve também regularmente para a Revista Voyager.

 

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