O jornal eletrônico de Águas Claras • Quinta Feira, 26 de Abril de 2018

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Saúde

‘Nossa sociedade está cronicamente privada do sono’: a importância do relógio biológico

O Prêmio Nobel de Medicina de 2017 foi para os pioneiros dos estudos do ciclo circadiano. Quais luzes estes estudos trazem sobre o ciclo da vida?

 

O ciclo diário do nosso planeta é antigo e inevitável, por isso a ideia de um relógio interno do nosso corpo nunca pareceu absurda. Mas dentro da ciência, perguntar por quê e como as coisas funcionam requerem grandes esforços de engenhosidade que trazem as respostas mais inusitadas.

Foi o caso de três biólogos norte-americanos, Jeffrey Hall, Michael Robash e Michel Young, que na semana passada receberam o Prêmio Nobel de Medicina e Psicologia, pela descoberta dos genes responsáveis pelo controle do nosso ritmo circadiano.

As primeiras evidências de um relógio interno foram descobertas já no século XVIII, quando o cientista francês Jean-Jaques D’Ortous de Mairan notou que plantas ambientadas no escuro e em temperatura estável mantinham sua rotina diária de abertura e fechamento das suas folhas. Apesar da descoberta, a conclusão de De Mairan foi de que as plantas “conseguiam sentir o sol mesmo sem poder vê-lo”.

Foi apenas um século depois que Hall, Rosbash and Young, enquanto faziam experimentos com moscas das frutas, conseguiram isolar um gene que controla o ritmo de um organismo vivo. A partir daí começaram a ter uma noção do nosso relógio biológico, que “explica como plantas, animais e humanos adaptam seu ritmo biológico, mantendo sincronia com as revoluções da Terra”, nas palavras do comitê do Prêmio Nobel.

Com o uso das moscas das frutas, o time de pesquisadores identificou um gene periódico, que codifica uma proteína dentro da célula durante a noite e a degrada durante o dia, num eterno ciclo regenerativo.

O professor Robash, de 73 anos, membro da Universidade de Brandeis em Massachussets, disse que quando publicou seu paper na década de 1980 não tinha em mente a grandiosidade da descoberta. Desde então tudo mudou.

“Agora está claro que isso tem relevância em todo tipo de processo básico por influenciar uma parte significativa do genoma”, disse.

Cientistas descobriram que o mesmo gene existe em mamíferos e que ele se expressa em uma pequena região do cérebro chamada de núcleo supraquiasmático, ou NSQ. Por um lado ele se relaciona com a retina dos olhos, por outro ele se conecta à glândula pineal, que libera o hormônio do sono, a melatonina.

Graças às invenções da modernidade nosso modo de vida não é mais regrado pelo nascer e pôr do sol, mas a luz continua sendo de grande influência para nosso comportamento e bem-estar. Essa revelação fomentou campanhas pelo “sono limpo”, seus proponentes argumentam que luz forte antes de se deitar e a falta de luz solar em escritórios podem enfraquecer natural ciclo circassiano, deixando pessoas num contínuo estado de crepúsculo — sonolenta nas manhãs e muito agitadas para dormir à noite.

Robash vê essa tomada de consciência com bons olhos. “Há muito tempo isso foi negligenciado como uma questão de saúde pública”, disse. “Nossa sociedade ocidental como um todo é em certa medida privada do sono, e quando digo em certa medida, eu quero dizer de modo crônico”.

Há cada vez mais evidências de que o afastamento do ciclo circadiano pode ter consequências no longo prazo que não se limitam apenas ao constante cansaço.

Antes se achava que o cérebro era o único órgão responsável pelo nosso relógio biológico. Desde a década passada, porém, cientistas mostraram que os genes do relógio biológico estão ativos em quase todas as células do nosso organismo. As atividades do nosso sangue, fígado, pâncreas e pulmões são reguladas num ciclo de 24 horas. Cientistas também descobriram que cerca de metade dos nossos genes aparentam estar sob o controle do sistema circadiano, seguindo um padrão de gradual.

Com efeito, temos micro-relógios batendo em quase todas as células do nosso corpo, antecipando nossas necessidades diárias. Esta rede de relógios não somente mantém a ordem em relação ao mundo exterior, mas também internamente.

“Virtualmente tudo no nosso organismo, desde a secreção de hormônios, à preparação de enzimas digestivas no estômago ou mudanças na pressão sanguínea, são influenciadas em grande medida pelo horário que essas funções são necessárias”, disse Clifford Saper, professor de neutrociência da Escola Médica de Harvard. “O maior erro é as pessoas acharem que não precisam obedecer as regras da biologia, podendo comer, beber e dormir a hora que quiserem”.

Isso explica por que o jet lag (descompasso de horário em viagens internacionais) é tão desagradável: enquanto o relógio do cérebro se adapta rapidamente à mudança de fuso, o resto do corpo demora muito mais para se adaptar — e faz isso em tempos diferentes.

“Jet lag é ruim porque você não se desregula com o fuso por inteiro, toda a rede circadiana deixa de se alinhar entre si”, disse o professor Russel Foster, chefe de neurociência circassiana da Universidade de Oxford. “Se o seu sistema circadiano se alinhasse completamente e você só estivesse fora do fuso, você não se sentiria tão mal”.

Isso também ajuda a explicar os riscos de saúde que trabalhadores noturnos estão expostos, que são mais propensos a sofrer ataques do coração, demência, diabetes e alguns tipos de câncer. “Eles são obrigados a reprimir a própria biologia”, disse foster.

Obesidade também atinge mais quem tem o sono desregulado. O estudo de Saper descobriu que animais que não tem muito sono, mas se mantém no ciclo circadiano, não ganham peso. Mas quando colocados em um ciclo de 20 horas alternando entre claridade e escuridão, eles acabam comendo impulsivamente e desenvolvem intolerância a glucose.

“Eu diria que, para humanos, ficar até tarde acordado, ver telas de computador com níveis altos de luz azul e comendo comidas gordurosas, são hábitos que potencializam a incidência de obesidade e diabetes.”, disse Saper.

Foster diz que a desconsideração do ciclo circadiano em experimentos com animais no passado pode até ter levado ao banimento de potenciais medicamentos. “A toxicidade pode mudar de 20% a 80% dependendo do horário do dia em que você testa o medicamento”.

Com este conhecimento científico aos poucos se difundindo, profissionais e a sociedade em geral está acordando para o poder do relógio biológico.

Um paper divulgado ano passado mostrava que o jet lag pode prejudicar a performance de jogadores de beisebol, o que levou aos times contratarem biologistas circadianos como consultores de agendas para treino e viagens. A Marinha dos EUA alterou seu sistema de turnos para se adequar ao relógio de 24 horas, e não mais 18 horas adotado no antigo sistema inglês. Escolas experimentam um período mais tarde de horários, para se adequar melhor ao relógio biológico dos adolescentes, que tem um certo atraso em relação aos adultos.

O ritmo circadiano passou de um obscuro tópico científico para parte do Zeitgeist, empresas lançam cada vez mais produtos que satisfaçam os anseios por um bom sono alinhado ao relógio natural. “ Estamos no mundo ocidental, onde houver oportunidade para fazer um dinheiro eles vão tentar”, disse Rosbash.

Aos 73 anos, ele descreve seu relacionamento com o sono como “no limíte do problemático” e prefere remédios sem muita sofisticação tecnológica.

“Eu não descobri como melhorar ainda”, disse. “Eu tento não tomar remédios para dormir, não tomo muito álcool à noite, e leio um bom livro. Essas coisas do sense comum. Acho que ajuda”.

 

 

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Por Hannah Devlin, correspondente de ciência do The Gaurdian / Tradução: Henrique Terceiro.

Capa: Cena de Clube da Luta (20th Century Fox, 1999), com Edward Norton.

 

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