O jornal eletrônico de Águas Claras • Quarta Feira, 18 de Julho de 2018

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Cultura

Uma entrevista reveladora, do talento e sensibilidade do Poeta

O livro “Dos Socovões da Alma” editado pela Editora do Carmo em 2017

 

 

Quem é  ALUFA-LICUTA OXORONGA?

Três grandes paixões humanas movem o meu ser: psicologia, literatura e arte. Quanto a quem sou, meus textos poéticos respondem. Ali me escondo e me revelo desde a tenra idade. No entanto:

“Todos temos uma história

De caçadas ou de caçador,

Alguns, contam sua glória

Com bravura e com valor,

Não medem as travessuras

E narram as suas aventuras

Em incomparável destemor.”

Assim, externarei um pouco de mim. Nasci no descambar da década de 60, em um pequeno vilarejo do Tocantins, chamado Dois Irmãos (à época, esquecido por Deus e pelos desalmados homens), atualmente, uma próspera cidadezinha do interior.

“Eu nasci em Dois Irmãos

Na Rua chamada Cristais

Tive os cuidados das mãos

De meus carinhosos pais

Hoje eu guardo da infância

A saudade em pregnância

de ruas, terreiros e quintais.”

Minha mãe foi mulher parideira, paria sem pestanejar. Chegando aos cinquenta me pariu, e só parou de pari por vergonha, se achava velha para embuchar. Talvez por isto meu nascimento foi para cedo morrer, para não longe chegar, para ser rama rasteira, carvão de pouco risco, vida de pouco voo, pernas de pouco correr. Talvez por isto vi o mundo e percebi que não me bastava. Não cabia em meu peito. Talvez por isto adoeci logo no sétimo dia de nascido. Mas insurgi com a morte e a venci, por isto cresci depressa e mais depressa envelheci. Um pouco de cada vez, rápido fui perdendo a tintura da vida. Por isto não tenho feições de admiro.

“O maior perigo da vida

é se ter uma útero de pedra

na hora do rebento nascer;

é se ter um peito fechado

à própria existência de ser;

é se construir de nuvem

na hora do sol aparecer.

O maior perigo da vida

não é morrer antes de ser,

o maior perigo da vida

é só o silêncio saber.” [1]

Nunca tive quebranto, devido a feição pouco provida, mas não me faltou arca caída e noites de muito rezar. Se a investidura do meu nascer não foi feito para longe chegar, escapei por um triz.

“A minha mãe parideira

cansada de tanto parir

quis uma pedra em seu útero

para nunca mais se partir.

E meu pai, um tanto enfático,

pôs-se a recusar.

E deu à ela, (em sonho fálico)

um nova pedra pra cuidar.”

(…)

E foi assim que nasci:

não como nascem

os filhos de hora primeira.

Eu nasci

como nascem

os filhos de mãe parideira.

Fui lançado pra vida

como folha trepadeira,

fui jogado pra baixo

como rama rasteira,

fui deixado de lado

como vento passageiro.

E assim fui nascido:

não como nascem

os filhos de vida inteira.

Eu nasci

como nascem

os filhos de mãe-poedeira:

trazido para a vida

como um risco de carvão,

tangido para a terra

como um ressequido grão

e às vezes, desmerecido

do acalanto de uma mão.” [2]

Quando começou a escrever e por que?

Nasci velho de eternidades. A guilhotina do tempo varou meu pensamento ainda meninote. Fez-me descer aos abismos mais profundos do meu ser. Impondo a cada instante de vida um alumbre de existir. Aos oito já pintava tudo que via pela frente com carvão tirado do velho fogão à lenha, que era alimentado por fogo abanado pelas mãos de mamãe. Quando não tinha papel pintava figuras no terreiro de casa. Aos doze tive o contato com os pigmentos do urucum, do jatobá, do açafrão e tantos outros, e já queria colorir meu mundo de novas cores. Aos quatorze escrevia igual gente grande. Comia livros para impressionar meu pai. Severo demais nesse assunto. E tão doce no trato diário, no manejo do olhar. No traquejo com as palavras. Não foi fácil ser caçula de uma numerosa prole. Tive que escrever. Forçadamente. De tanto ler ‘tomei o gosto pela escrita’ e nunca mais parei. Aos dezesseis para dezessete edite e publiquei meu primeiro livro “Ratos, Vermes & Homens”, todo em soneto de cunho existencial, augustiano, xerocopiado clandestinamente em um órgão público e editado de forma artesanal. Vi que ‘a coisa fluía’ e, como dizem por cá ‘dei sequência ao enterro’.

Existe um tema específico na tua poética?

Não exatamente. O homem, enquanto ser-no-mundo, talvez seja o grande tema de minha criação poética. Alguns temas, como angústia, vazio, solidão e loucura, que expressam em tintas rubras a existencialidade humana, são recorrentes na grande maioria dos meus textos poéticos.

Qual é a fonte da tua criatividade?

Meus escritos e desenhos expressam dores. Pois a vida dói. Angustia-me o peito avassaladoramente. Seja talvez esta a fonte de minha criatividade: a angústia humana. Com o seu viés existencial estampando a existencialidade do ser-no-mundo, tanto em seu existir quanto ao não-existir-existindo. Talvez por isto vivo rabiscando pedaços de papéis por onde vou. Olhando o dentro das coisas (animadas e inanimadas) e de seu não-ser-de-coisas. Talvez esteja minha criatividade na Alma das Coisas.  Nas coisas se desvela o meu-ser-não-sendo, com as minhas dores, desejos e sonhos.

Qual é a tua relação com a poesia contemporânea?

O nosso existir se faz existindo, ou mesmo, não existindo o existir que se insiste em existir. Contudo, sem exceção, somos sovados a pés na presença do outro e assim modelamos nosso mundo (particular e existencial) de símbolos e abstratas narrativas. Repousando no bem e no mal um encomendo encanto. Especificamente o meu corpo foi construído a pau-a-pique. Meu ser foi sustentado a sonhos, fantasias e encantamentos. Desde os primórdios do meu tempo-de-existir-existindo me vi nestas identificações, e desde então, delas tenho feito minha in_sustentável habitação. Por isto no meu tecido de ser há tantas mobilizações de desejos e linguagem. Clamor das mordeduras do existir, que me lançam, fio-a-fio, em um mergulho de sonhos e fome, sangue e suor, misturados ao meu barro/existir, sovado aos pés do mundo, em (h)eras imemoriais. Portanto, a minha relação com a poesia contemporânea é simbiótica. Sou parido de uma partenogênese existência. Em uma cisão de mundo com suas nuances e impressões. Sustentado na identificação das in_certezas humanas. Por isto o meu barco/vida está sempre partindo a improváveis e distantes cais. Pondo-me a remetidas constantes. De sumidouro a sumidouro, nas vísceras do tempo/instante do meu feitio de gente que o tempo/ser insiste em tecer em um in_findável não-existir-existindo. O que me permite aproximação e distanciamento, entranhamento e estranhamento com a poética contemporânea.

Existe bons poetas no Brasil?

Sim. Bons e admiráveis poetas. Em sua grande maioria vivendo em um ostracismo imposto por um mercado editorial implacavelmente elitista. Felizmente tem surgido no  Brasil editoras comprometidas com o fazer poético em detrimento ao nome e status do autor. Cito, por exemplo, a Editora do Carmo, que vem despontando no mercado editorial sem medo de ousar, permitindo a autores (ditos independentes) a visibilidade necessária e merecida.

Em tua profissão secular, como psicólogo, como tratarias o caos dos homens sem a poesia?

Vim da Bacia das almas. Da boca da noite escura. Próximo de onde o gato perdeu as botas. Um tiquinho antes de onde o vento faz a curva. Nunca tive qualquer presteza, tampouco presto a alguma cousa. Por isto me fiz poeta, por pura desnecessariedade humana. E para compreender o emaranhar do outro me fiz psicólogo. Sabendo que o viver nestes tempos líquidos, em que a incerteza, insegurança, vazios e temores assalta o ser, trazendo desconforto aos corações, teria imensa dificuldade em buscar compreender tais situações procurando respostas no óbvio, no natural, no que se posta cristalizado às minhas percepções de ser-no-mundo. Diante disto a poética e a arte se torna um aporte essencial para cuidar (não tratar) e compreender o outro em seu caos de existir em um mundo tão inóspito, tanto ao outro, em-si-mesmado (em sua in_concretude de vida), quanto a mim, em relação empática ao outro (trazendo às mãos um suposto saber). Portanto, a poética ajuda, mas não é um fim (nada-o-é-neste-mundo-hostil).  Pois a práxis psicológica se pauta na fala (linguagem), no dito (ato de dizer) e no não-dito (silêncio). Essa prática permite darmos conta dos dramas, conflitos, medos, frustrações, inseguranças, ansiedades e temores causados, em sua imensa maioria, pela somatização das coisas vindas fora-do-ser, introjetadas para o lado de dentro pela dificuldade de se externar a fala. Portanto, somos pautados à dor e ao sofrimento, entretanto, como catarse, temos a arte e a poesia, que ajudam o psicólogo a dar conta do imponderável que insta em todo e qualquer ser. O que as torna imprescindível para que o homem entenda o seu caos existencial e se coloque em relação empática com o psicólogo no espaço do setting terapêutico.

Tens alta sensibilidade, já percebi isto em teus textos e poemas, logo deves perceber, por meio de uma análise simples, se é ou não possível manter a lucidez neste mundo atual, o que dirias?

Quando menino amava armar alçapões e arapucas, ainda que ao pegar os pássaros logo os soltava. Ao redor dos alçapões colocava os visgos de jaqueiras e mangabeiras, ao lado armava arapucas, feitas de pequenos gravetos, frágeis e insólitos, mas que prendiam as aves. Bem próximo das arapucas eu ficava escondido com uma linha bem fina e longa, em que a ponta ficava presa à minha mão, à espera do bote. Gostava de ficar olhando a imprevisibilidade da queda, do voo contido, do olhar de susto e do ruflar das asas ao soltá-los. Por ser um péssimo passarinheiro (soltava todos os pássaros que caiam nas minhas armadilhas) escolhi o afeto. Por mais difíceis sejam seus caminhos e tortuosos seus meandros, o afeto me fez o homem que sou. Do péssimo passarinheiro restou o olhar vazio pelo voo. Talvez por pura inveja dos pássaros e suas asas que (im)ponderam o tempo e as coisas pelo se lançar ao vazio de si e do tempo. Como se o tempo fosse mãos acolhedoras. Como se a queda não fosse exercício a novos passos/voos. Desta forma, vivenciei (e vivencio) cada emoção em um abecedário de afetos. Interpretando cada texto na intertextualidade do coração. Desnudando suas roupagens em elaborados pensamentos, embalando suas vivências de vida em um discernimento de esperança. Somente assim mantenho minha lucidez neste mundo líquido, frio e impessoal. Seja talvez a loucura a busca por um afeto. Pois o que se abandona por fora nos inteira e integra por dentro, nossos cômodos (alma e coração) são quartos revisitados, ardência de galho seco espinhoso surcando a carne a epiderme do existir. Esta é a minha lucidez possível nessa contemporaneidade líquida.

Cite alguns autores, não os preferidos, mas que tenha alguma relevância em nosso contexto.

A vida é uma arte representativa da representação artística do existir-existindo. Não pede descanso. É vicissitude, querência, vivência e solicitude. Sente o existir na existência do existir. É simbiose de si, fala por si, sua representação simbólica é o ser olhando o ser que se olha e se esconde por dentro do ser. Quando isto acontece, o ser-no-mundo se afigura em outras nuances, em outras investigações até que se permite o acesso, o olhar e a escuta. O admirar e o vivenciar de um e do outro em uma consubstanciação de mundo e de ser. Desta forma, alguns autores tem lugar cativo em nosso contexto atual, dentre tantos, cito:

Anta Diop (pelo restabelecimento do berço civilizatório) Merleau-Ponty (pelo conceito de corporeidade e percepção ontológica), Frantz Fanon (divisor de águas, tanto na África quanto na diáspora africana), Edouard Glissant (pela presença consentida no Diverso), Aimé Césare (pelo restabelecimento da negritude em nosso ser),  Chinua Achebe (pelo resgate da oralidade africana), Mia Couto (o queridinho dos poetas contemporâneos) e tantos outros.

Fale um pouco dos seus livros. Quantos são, e como surgiu em tua mente a ideia de escrevê-los?

Sou autor de 62 livros de poesia, 05 de ensaio artístico e 16 e-cordel. Sócio Fundador das Ong: Leo & Teo  e Ca?ú – Sociedade Cultural e idealizador do Zine “Uma Coisinha Qualquer”, que circulou por 04 anos na cidade do Recife. Uma das particularidade que posso apontar, em relação a ideia de escrever cada um de meus livros, é a escolha  do título, que sempre precede a escrita. Alguns livros, como o ‘Ratos, Vermes & Homens’ são singulares, pois vieram primeiro, ainda na minha mocidade, outros, como ‘Cântaros de Cinzas Mortas – De trevas, de luz, de escuridão”, por terem vindo em períodos de intensa descostura existencial, no entanto, o meu convívio com todos os meus livros, sem exceção, se situa no plano do respeito mútuo. Eles (não sei se todos, mas alguns certamente que sim) me conhecem por dentro e por fora, sabem de minhas costuras de dentro, dos meus alinhaves de ser, do meu tecido/existencial de puro algodão, entretanto, há aqueles que me afetam, nem tanto ao estranhamento (se fosse a isto saberia conviver, pois eu mesmo me fiz e -e me faço- estranho a mim em diversos momentos), mas ao silêncio que me rasga quando os tenho em mãos.

“A minha ideia de vida

é a minha ideia de vida

que não sabe ser vida.

Ela vem fechada por dentro

feito náusea, feito fome,

feito mar e labirinto.

Mas trago uma outra ideia

que é uma ideia de vida,

que vem por fora, indelével,

feito fogo e feito céu.

Esta é a minha ideia de vida

que ainda se quer vida.” [3]

 

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Assim, vivendo esta condição de ser, creio também que:

“A essência do homem

é menos de homem

e mais de lobisomem.” [4]

Sendo poeta e Artista Plástico andei por vários lugares e conheci diversas culturas, o que me trouxe algo significativo na minha condição de ser o ser que se apercebe do ser que é e do ser que ainda não é e que se lança a ser, todavia, buscando sempre os sonhos que comportam homens livres onde, por vezes, a força é a palavra final. Já que:

“A viagem do vento

é de pouca temporada.

Há uma algibeira de voz

que suspira ao vento

por uma ínfima existência.

Mas o vento não ouve

o clamor desta voz

circunstancialmente aflita

e necessariamente indesejada.

O seu corpo de brisa

não acomoda os gritos.” [5]

Com isso, no grande hiato da tessitura de minha vida, formada às vezes por fio duradouro e noutras, por indeléveis sonhos, casei, tive filhos mas nunca abandonei a arte, aliás, apesar dos obstáculos e de uma ou outra decepção (natural em nossa vida) construí o meu mundo particular e dele venho me alimentando nestas quatro décadas, e nesta subjetividade de vida, sinto que:

“A minha alma oscila

entre a raiva e o

medo.

Meu corpo é visitado

dia e noite

pela exata essência

de secretas lembranças.

E toda a minha vida

é vivida ao extremo

de cada desejo humano:

a minha alma não tem hora feliz!” [6]

Portanto, a possibilidade de conhecer pessoas, trocar conhecimentos e poder interagir desta demasiada condição humana é algo que engrandece e traz um novo olhar acerca da própria existência, pois:

“As dores de uma manhã

que se dobra aos selos

de um dia de sol

é como um rio que nasce

entre os cânticos das pedras

e o choro das águas.

O encanto que floresce

traz consigo um silêncio

que permeia o chão

de incógnita exaltação.

As dores de uma manhã

que se dobra aos selos

de um dia de sol

é como um rio que nasce

entre os cânticos das pedras

e o choro das águas.

O encanto que floresce

traz consigo um silêncio

que permeia o chão

de incógnita exaltação.” [7]

Por isto, nos caminhos e descaminhos de minha existência sempre me ative a autores existenciais, pois a escrita destes autores sempre nos remete ao ubuntu africano, raiz do existencialismo e, ainda hoje, tão pouco mencionado. Por isto sei que:

“De onde venho

a paz é relíquia.

O pastoreio da vida

é feito à rifles

e afiados punhais.

De onde venho

não há tempo pra sorte:

Tudo se constitui

de labaredas e cinzas.”[8]

Você escreve diariamente?

Vivemos em uma época (e mundo) onde se banaliza a existência. A mensagem propagada não é totalmente aberta. Os sentimentos são velados, os sinais e referências deletados, e assim, o conteúdo se perde, se deteriora, se esvai. O encontro com o outro exaspera e se finda na superficialidade das relações. Quando não, o controle (ou a tentativa deste controle pelo medo da perda) não promove mudança. Não avança em nossa condição de existir. Por isto o meu fazer poético é diário e constante. Não cessa. E centrado neste estado angustiante de ser, onde o se lançar pela busca, no tempo Devir, muitas vezes não se encaixa, não se completa num breve e rápido olhar, lanço para dentro de mim esta necessidade de escrever. No ato da escrita me aproximo do que há mais interno em mim. Do que traz significados e produz significâncias em meu existir. Não como fuga, e sim como procura. Na minha escrita me revelo me desvelando das angústias do meu ser. Só assim me volto para as coisas, tanto as que alcanço quanto as que me escapam. E são estas coisas que me fazem escrever, sem cessar um único dia. Única orfandade que conheço é o ato de não escrever.

Como concilia a literatura com o trabalho secular?

Tudo se mistura em mim: Noite, mar, vastidão, mistério, encanto, vivências, grafia, mobílias, voz, mãos, cama, concha, choro, livros, anoitecer, alvorecer, frutas, escarpas, desalinhos, abraços e beijos. Tudo se condensa e transborda em encanto. Deserto, afeto, entrelaces, silêncio, vozerio, cravos, rosas, bromélias, pássaros, voos e um destino espargindo um longo e belo caminho, nos levando a um acolhimento de in(quieta)ções de vida e alicerces de amor. A par disto, deste efervescer de existência dentro de mim, tenho que seguir o meu viver, o meu existir-existindo. Cuidado da família, sendo um pai presente, um companheiro atencioso e cumprir meu ofício como psicólogo. Para conciliar tanto afazeres, entre 4h a 5:30h a horizontalidade da vida me oferece o conforto do sono. Portanto, a noite é o meu espaço de criação. Momento em que me situo enquanto poeta. Organizo meus pensamentos. Elaboro novos projetos. Digito os garranchos que foram passados durante o dia em folhas de papéis.  E assim sigo o meu existir criativo.

Na sua opinião é possível dissociar as vivências pessoais do processo criativo? Ou o autor está sempre revelando o seu mundo interior nas suas obras?

A minha escrita tem a minha voz. A minha in_conclusa existência. Silenciosamente o meu grito salta aos meus olhos e se externa. O tom da minha vida vai além do verde das folhas e do colorido das flores. Tem a cor do chão pisado pelos caboclos ribeirinhos amazônicos. Dos aboios e entoadas dos matutos nordestinos. Na floração dos cactos na seca caatinga a engolir os bois. Das rezas, das cantigas e dos alumbres dos sertanejos tocantinenses. Em sonidos de fortes berrantes ouvidos nos distantes currais. Assim, é possível que alguns escritores/poetas façam esta prece dicotômica, dissociando vida e obra. Eu não. Sou osso na beira da estrada, branqueado pelo sol. Pedaço de couro seco, estorricado pela sequidão dos tempos. Tenho fome por vida. Sou o retirante de Joao Cabral de Melo Neto. Trago n’alma um cântico carpideiro. O solo rachado avermelha os meus pés, brota calosidade nas mãos. Sou tapera abandonada. Soletração de galo. Moirão com seus caburés. Não consigo dissociar meu mundo interior de minhas obras. Tudo se mistura ontologicamente existencial. Às vezes eu, bicho do mato, saio da toca, da loca, do escuro buraco em que vivo e busco outro tipo de vida e comida. Mas a toca, a loca, o buraco continua à minha espera. Lá é o seu lugar de segurança. Lugar em que a vida lhe traz segurança, significado e significância de existir. O fato de sair ao sol, esporadicamente, não me faz abandonar o gosto do silencio e da solidão. O meu ser/bicho/gente tem muito traquejo. Conheço muito bem dos manejos do viver.

Fale dos projetos em curso.

Nossas raízes se emaranham em solos existências frequentemente revisitados. E a vida se obstina em paisagens transitórias até que se instala em nosso peito (e alma) pedaços do seu existir. Fazendo-nos cor (e vida) por dentro de novas paisagens. Diante disto, tenho alguns projetos em curso. Em psicologia, a iniciação (em futuro próximo) de um mestrado tendo como linha de pesquisa a poética do invisível, em que buscarei compreender a importância do canto na etnia Caiapó. Nas artes plásticas, a conclusão de uma instalação composta por 30 peças, em MDF (ou aglomerado simples) intitulado Quo Vadis: De Adão a Zumbi – Todos os meus ossos dirão! Em relação a literatura, os projetos são diários e constantes. Cada dia é um fazer diferente. Uma busca. Uma contemplação. E basta de palavras, pois aprendi, desde cedo, a não ocupar o espaço (tempo) dos outros mais do que o necessário, e, por enquanto este foi o tempo necessário para você conhecer este sujeito estranho, com aspectos faciais rudes, mas que pensa, que observa, que analisa e que tira diversas conclusões a respeito de si e dos outros. Deste modo, finalizo dizendo o seguinte:

Quem me dera

um dia de sol.

Um dia

onde eu pudesse expressar

meus escusos sentimentos .

Onde a ampla querência

de meu humano coração

não me exigisse

uma urgência de vida,

mas,

uma interpretação

e exposição

da pluralidade de minha alma.

 

Quem me dera

um dia de sol

que não fosse embrutecido,

retido,

esterilizado pelas vísceras

de toda uma vida combalida.

 

Quem me dera

um dia de sol

e

sal.

 

Um dia

em que nuvens se abrissem

não somente aos raios de sol,

mas, também,

aos corpos em carícias,

aos gestos familiares

e aos passeios pelos parques.

 

Quem me dera

um dia de sol

na imensidão azul do céu.

 

Um dia

em que aves registrassem seus voos

sem medo das mãos dos passarinheiros.

Um dia

em que redes atadas tolerassem

a força do amor,

em que ventos soprassem doçuras

em vez de tempestade.

 

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Um dia

que nosso destino

(remanso calmo)

nos trouxesse algo,

além do silêncio

e

da

solidão.

 

Um dia

em que pudéssemos

determinar

(sem medo,

sem exigências

e sem obrigações)

nossos textos existenciais.

 

Quem me dera

um dia de sol.

 

Um dia

sem rupturas

e sem traumas.

 

Um dia

em que a nossa tessitura

de vida

fosse telhados abertos

aos adventos do sol.

 

Um dia

em que pudéssemos abreviar

a força do vento.

 

Um dia

em que a esquadrinhação da vida

estivesse sobre os ombros

de todos os homens da terra.

 

Um dia

em que as referências,

inferências,

ânsias,

tolerâncias,

importâncias

e inconstâncias

de todos nós

fosse mesurada somente

pela pungência da vida.

 

Um dia

em que os jardins das casas

e os telhados sublimosos das dores

fossem empenhados

(primeiramente)

a conquistarem um lugar ao sol.

 

Um dia

em que os álbuns pátrios

e os gestos efusivos

fossem,

(e estivessem),

sublinhados de subterfúgios de vida.

 

Um dia

em que as pétalas se abrissem

à beira da estrada

sem medo da velocidade dos homens

e da poluição do ar.

 

Um dia

em que as conveniências da mãos

facilitassem as colheitas

nos roçados da vida.

 

Um dia

em que o próprio sol

não trouxesse pra dentro de nós

os seus celeiros de dor.

 

Um dia,

somente um dia de sol. [9]

 

Por Evan do Carmo

 

Para o portal: http://aquiaguasclaras.com.br

 

[1] OXORONGA, Alufa-Licuta. Útero de Pedra.  Ca?ú-Sociedade Cultural

[2] OXORONGA, Alufa-Licuta. Útero de Pedra.  Ca?ú-Sociedade Cultural

[3] OXORONGA, Alufa-Licuta. Útero de Pedra.  Ca?ú-Sociedade Cultural

[4] Ibidem.

[5] OXORONGA, Alufa-Licuta. A celebração do caos. Ca?ú-Sociedade Cultural

[6] OXORONGA, Alufa-Licuta. A suprema indecência humana.  Ca?ú-Sociedade Cultural

[7] Ibidem.

[8] Ibidem.

 

[9] OXORONGA, Alufa-Licuta. Dos socovões da alma.  Ca?ú-Sociedade Cultural

Encontre a obra de Alufa no site http://www.editoradocarmo.com

 

Evan do Carmo, Nascido na Paraíba em (29/04/64) é poeta, escritor, romancista, jornalista, músico, filósofo e crítico literário. Fundou e dirigiu o jornal Fakos Universitário. Criou em 2009 a revista Leitura e Crítica. Tem 22 livros publicados, sua obra está disponível em 12 países, (um livro editado em inglês. (O Moralista) Entre outros estão: O Fel e o Mel, Heresia poética, Elogio à Loucura de Nietzsche, Licença Poética, Labirinto Emocional, Presunção, O Cadafalso, Dente de Aço, Alma Mediana, e Língua de Fogo. Participou também com muitos contos em antologias. Foi um dos vencedores do concurso Machado de Assis do SESC DF de 2005. Em 2007 foi jurado na categoria contos do concurso Gente de Talento 2007 promovido pela Caixa Econômica Federal, ao lado de Marcelino Freire. Em 2012 criou e editou até 2015, os Jornais: Correio Brasília, Jornal de Vicente Pires, Jornal de Taguatinga e o Jornal do Gama. Evan do Carmo é estudioso da obra de José Saramago, em 2015 publicou o livro Ensaio Sobre a Loucura, e o livro Reflexões de Saramago, momentos antes de sua morte, o livro nos oferece um panorama perfeito na voz do próprio Saramago em forma de ficção ensaísta, sobre a obra do Nobel Português. Em 2016 criou a Editora do Carmo e o projeto Dez Poetas e Eu, onde já publicou 100 poetas, e o livro Um Brinde à Poesia, uma obra de coautoria com outros poetas contemporâneos.

Palestras e oficinas literárias (61) 981188607

 

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