O jornal eletrônico de Águas Claras • Quarta Feira, 18 de Julho de 2018

Saúde

“A hipótese é que eles vem das matas” diz pesquisador sobre o barbeiro encontrado em Águas Claras


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Inseto encontrado em apartamento de Águas Claras alerta a população sobre os riscos de proliferação na região. Professor da UnB mostra que houve aumento expressivo dos casos no DF, porém em Águas Claras os casos de barbeiro curiosamente diminuíram.

 

Nesta segunda-feira (27) o morador de Águas Claras Dayvison Lopes Seixas, 36 anos, encontrou um barbeiro em seu apartamento e fez o que os pesquisadores recomendam: capturou o animal e chamou autoridades da área de saúde para fazer estudos. O barbeiro foi levado para o laboratório de parazitologia da Faculdade de Medicina na Universidade de Brasília (UnB), onde foi identificado o protozoário da Doença de Chagas.

 

Barbeiro da espécie Panstrongylus megistus encontrado por morador de Águas Claras (esq.) e imagem microscópica do protozoário Trypanossoma cruzi encontrado no inseto.

 

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Junto com os exames, o pessoal da DIVAL (Diretoria de Vigilância Ambiental) foi acionado para fazer uma pesquisa no condomínio. Eles não encontraram colônias de barbeiros na área, o que sugere que aquele barbeiro possa ter entrado pelo parque de Águas Claras, já que o prédio se encontra a 250 metros de distância do parque. Os bombeiros instalaram uma tela de proteção ao local.

 

O laboratório que identificou é coordenado pelo professor Rodrigo Gurgel-Gonçalves, doutor em Ciências da Saúde pela UnB e especialista em triatomíneos. Ele e sua equipe conduzem pesquisas sobre a ecologia do barbeiro no Distrito Federal há mais de dez anos. O Aqui Águas Claras conversou com o professor para saber mais sobre a situação e riscos na região de Águas Claras e no Distrito Federal como um todo. Entre outras revelações, os estudos mostram que os casos de barbeiros encontrados em Águas Claras diminuiu sensivelmente desde 2002, provavelmente devido ao rápido processo de urbanização da região. Por outro lado, em regiões como Vicente Pires e Park Way os casos de barbeiros subiram em mais de 5 vezes. Além de que os casos registrados de doença de chagas no DF (191 mortes em 2015, segundo o DataSUS) ocorrem em pessoas de vindas fora, pois não há ainda caso comprovado de infecção dentro do DF.

 

Confira a entrevista:

 

Como foi o procedimento para a identificação do barbeiro do morador de Águas Claras?

 

No primeiro estudo foi identificado em Águas Claras a mesma espécie de barbeiro, Panstrongylus megistus, variação mais encontrada no Distrito Federal, principalmente em Sobradinho e Park Way. Este é o parasito (foto) que foi encontrado no barbeiro. Quando o barbeiro chegou [ao laboratório] a gente fez o exame, que não é muito complicado. A gente usa anteparos, com luvas e cabine de segurança, e aí a gente espreme o abdômen do barbeiro para extrair as fezes ou o intestino dele numa lâmina. Depois a gente verifica a presença dos parasitos. Assim você pode ver a morfologia típica do Trypanossoma cruzi, assim como Carlos Chagas descreveu em 1909, ano da descoberta. Na época Carlos Chagas descobriu tudo: o parasita, o vetor, o ciclo de vida e as manifestações da doença de Chagas. uma grande contribuição desse brasileiro para a ciência e a medicina.

 

Águas Claras possui construções abandonadas e com moradia precária, isto influencia nas ocorrências?

 

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A moradia precária facilita a colonização dos barbeiros quando ele invade. Na questão de invasões a construções abandonadas, é muito comum, e às vezes não ocorre só em ambientes rurais. Publicamos um artigo com o pessoal da Fiocruz Salvador, onde até em casas de condomínios de luxo tinham colônias dos barbeiros.

Casas de pau-a-pique no interior da Bahia, pode-se notar que a parede interior está cheia de manchas, identificadas como as fezes dos barbeiros. Em ambientes mais limpos e organizados a identificação e o combate é muito mais fácil.

 

O barbeiro que chegou no apartamento, o Panstrongylus megistus é comum em mata de galeria. Apesar de não termos capturado esta espécie nessas matas, remanescentes do Park Way ou Arniqueiras, a hipótese é que eles vem de lá, voando. Eles não voam muito bem, mas se estiverem com muita fome, ou com a temperatura elevada, cria-se um estímulo para eles voarem mais. E sabemos que na mata eles devem estar infectados, porque na mata há um ciclo silvestre, que envolve mamíferos silvestres, e acreditamos que o principal reservatório de uma espécie de gambá, ou roedores.

 

Então isso sugere que haja focos de barbeiros no Parque de Águas Claras e outros matos?

 

Provavelmente, baseado em literatura científica, se um estudo fosse feito teria um resultado muito parecido com o que fizemos em Salvador. Lá publicamos na revista Neglected Tropical Diseases: “Invasão frequente das casas por barbeiros infectados por Trypanossoma cruzi em uma área do Brasil”:

 

Região de Salvador que foi foco de estudo sobre os barbeiros coletados. As linhas verdes indicam a fronteira entre áreas urbanas e regiões de mato; os pontos, onde os barbeiros foram encontrados (Ribeiro Jr. et al, 2015)

 

Como você pode ver pela foto, há o limite das matas e as marcações de casas que foram registradas com barbeiro. E você vê que elas estão muito próximas. Deve acontecer uma situação similar aqui no Distrito Federal, porque a situação do Park Way e de Águas Claras é muito parecida: várias matas entremeadas com a paisagem urbana.

 

Estudos sobre as ocorrências do inseto barbeiro no Distrito Federal

 

Número de insetos barbeiros encontrados em diferentes regiões administrativas do DF, entre 2002 e 2010. Estudos mais recentes apontam o aumento de incidências.

 

Os pesquisadores do laboratório da UnB descreveram todos os barbeiros que foram encontrados durante os períodos de 2002 a 2010. Depois disso, a médica Thaís Tâmara Castro resolveu continuar os estudos para o seu doutorado sobre a ocorrência e infecção de barbeiros no DF. Pelos dados atualizados constata-se que houve um aumento do número de casos. Se compararmos Vicente Pires, por exemplo, vemos que na década passada foram registrados cerca de 40 casos de barbeiro encontrados, enquanto em Águas Claras, cerca de 80. E agora, Vicente Pires somente entre 2014 a 2016 registrou mais de 250 ocorrências de barbeiros, enquanto em Águas Claras o número diminuiu sensivelmente.

 

Com uma análise dos registros ao longo dos meses, os pesquisadores descobriram que, curiosamente, a maior frequência ocorria justamente nos meses de outubro e novembro.

 

É importante salientar que apesar que até hoje não há nenhum caso comprovado de transmissão dentro do DF. Há gente soropositiva da doença de chagass mas vindos de outros estados, principalmente da Bahia, Minas Gerais e Goiás. “Existe o risco, mas não foi comprovada a transmissão dentro dos limites do Distrito Federal” diz o pesquisador.

 

TriatoDex: o aplicativo de identificação de barbeiros

 

 

Por iniciativa do prof. Gurgel, ao se impressionar com um aplicativo semelhante feito por um formando da computação para identificar mosquitos da leishmaniose, e em parceria com a Universidade de Kansas e o instituto de saúde pública do México, o aplicativo TriatoDex reúne um banco de dados de todas as espécies de barbeiros catalogadas e ajuda o usuário a identificar uma espécie encontrada de acordo com as características por meio de perguntas e respostas. É uma maneira educativa de se ajudar nos estudos.

 

Henrique Terceiro / Aqui Águas Claras

 

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